Design e mercado
novembro 30, 2010
Ultimamente venho recebendo muitos emails com a mesma inquietação e quase desespero. Amigos, colegas e conhecidos em busca de uma vaga em design, queixam-se de muito procurar e de nada encontrar. Fiquei ao mesmo tempo espantada e preocupada.
Pergunto: será o mercado de trabalho tão implacável assim? Ou talvez não exista foco ou qualificação suficiente?
Capítulo 1 – Qualificação
Hoje em dia, ter apenas um curso superior não quer dizer absolutamente nada. É preciso mais. Só me dei conta de quantos cursos eu havia feito, quando fui levar os certificados para a avaliação de horas complementares exigidas pelo MEC: 52 cursos – de ilustração, de photoshop, de hardware (!), de portfolio, de design de superfície, de illustrator, de flash, de HQ, de… 52 cursos. Ao invés de gastar dinheiro com festinhas durante a faculdade toda, investi em livros e em cursos. Não, não estou dizendo que virar cdf e se enclausurar em casa seja a solução. Mas sim, estou dizendo que cair de bêbado pelos butecos da cidade não fará de ti um designer. Quando era estagiária do Centro de Design da Feevale, ganhava só R$ 400,00. Destes, R$ 200,00 eram para livros, todo mês, durante 1 ano e 1 mês. Resultado: biblioteca com mais de 40 livros de ilustração, design, moda e estamparia. Não estou dizendo que sou um modelo a ser seguido… até por que, cansei de virar madrugadas freelando e matando aulas. Acontece. O que estou dizendo, é que temos escolhas. A hora de iniciar a nossa construção profissional é *durante* a faculdade, não depois.
Capítulo 2 – Procurando emprego
Eu esperei a hora certa e então disse: ‘ok… hora de virar efetivada em uma empresa’. Decidi isso faz uns 5 meses. A partir de então, comecei a ligar para as empresas nas quais eu tinha interesse. Ligava e pedia para falar com o responsável pelo setor de criação (por que eu não nunca deixei que a secretária avaliasse meu potencial para o cargo, haha). Não, não se deixa currículo na empresa, sem marcar entrevista. Sim, o teu currículo vai para o lixo ou para a gaveta, caso entregue na portaria. Ou tu estudou design para o porteiro analisar a tua qualificação?
Outra coisa: design é um curso relativamente novo no Brasil. No RS, agora é que a mentalidade está se abrindo à importância do design. As empresas estão não apenas dando valor, como *procurando* designers qualificados. E muitas delas, não encontram. E sabem por quê? Por que o mesmo mercado que alguns dizem ser implacável, está é carente de qualidade.
Vocês procuram emprego como? Colocam trabalhos em um blog do wordpress e vão mostrar para o futuro chefe?
1) A maioria dos chefes das grandes empresas da região do Paranhana e Vale dos Sinos não sabe nem *ligar* o computador. E isso, simplesmente porque não precisam saber. Iniciaram suas empresas em fundos de quintal, passando cola nos sapatos, cortando dedos modelando, passando produtos químicos nos couros e sintéticos. Alguns fazem isso até hoje, e bem. Vai chegar pro empregador e dizer ‘tio, liga o computador aí? Ah! E a internet?’? haha Boa sorte.
2) Os empregadores não querem saber das tuas notas na faculdade, tampouco quantos cursos tu fez. Eles querem saber o que tu sabe fazer, quais foram tuas experiências e com quem.
3) Portfólio não é para mostrar pra mãe, tia ou vó. Porfólio é uma amostra de teus trabalhos e aptidões. Deve existir em formato digital *e* impresso. Um não exclui a importância do outro. ‘Ah, mas é caro imprimir…’ Sim, é. Mas portfólio não é uma pasta com toda a tua vida. Portfólio é uma seleção criteriosa de teus melhores trabalhos. Se tu tiver 5 bons, que te dão um baita orgulho, são estes que precisam ser impressos. Os outros 57 mais ou menos, mostra pra vó.
Capítulo 3 – Postura profissional
Gente, não me entendam mal. Ou, se quiserem, entendam. Mas como vocês me mandam emails pedindo emprego, posso ser direta e dar minha opinião, certo? Vocês abriram este espaço.
Nunca, jamais, em hipótese alguma, envie email pedindo emprego com coisas do tipo ‘já enviei currículo até pro papa e nada’, ‘estou apelando aos amigos’, ‘estou desesperada e preciso de uma oportunidade’. Tu vai pedir emprego dizendo que ninguém te quer? Hello? Oi? Tu pode estar na m**** completa, mas sorria sempre. Diga que está como freelancer e te valorize. Mas nunca diga ‘é, parou, sabe… tive uns 2 trabalhos mês passado…’, sério.
Se tu não arranja nada, já experimentou entrar em contato com empresas e prospectar projetos? Por exemplo: tu tá a fim de começar em uma empresa. Já analisou os produtos dela? Procurou conhecer os processos? Crie algo e ligue para lá. Diga que tu és estudante de design/designer, e que gostaria de mostrar alguns projetos e trocar ideias. Talvez o primeiro trabalho saia de graça ou quase de graça… mas o segundo, com certeza só sairá barato se tu quiser.
Eu tenho um lema: ” Ou cobre um preço justo, ou faça de graça”. Aceitar ’50 pilas’ por ilustração ou desenvolver um site por ’140 mangos’, é o fim. Tão rindo? Se soubessem a quantidade de colegas que fazem isso, não ririam. ‘Ah, mas eu tô precisando…’ Ah é? Eu preciso de dinheiro para o ônibus, para as minhas contas, para as minhas coisas. Mas não me prostituo para conseguir isso. Aceitar o ‘quase nada’ de pagamento, é estragar o mercado de trabalho de quem está na batalha dignamente, cobrando preços justos. Se tu não pode cobrar o que os bons cobram, aconselho a melhorar… ou então, a mudar de profissão.
Gente, espero que este post tenha ajudado.
Não o escrevi no intuito de desmotivar ninguém. Muito pelo contrário! Temos que enxergar soluções, refletir sobre nossos posicionamentos. Se as coisas não estão dando certo, não é hora de achar culpados. Isso não é Inquisição… isso é mercado de trabalho. Conheço muita gente boa que anda gastando energias sem precisar. Está faltando foco, minha gente. Foco e reflexão.
Se vocês soubessem quantos trabalhos eu fiz de graça, apenas para ter meu nome divulgado… haha Tudo na vida tem um começo.
Bora imprimir alguns trabalhos e fazer um portfólio online?
O DeviantArt tem um ótimo. Para ter acesso, é só criar uma conta em http://deviantart.com e acessar http://portfolio.deviantart.com/, logado no site.
Com o portfólio em dia, é a hora de ligar para aquela empresa e agendar uma entrevista.
Boa sorte!
Entrevistas. Ah… as entrevistas.
agosto 11, 2010

Grana? Ideias? Quantas dúvidas... Amo o que eu faço? - Ilustração que fiz com caneta bic e posterior (e rapidinha) finalização no photoshop.
Como toda boa estudante de Design deste país, já fui entrevistada muitas vezes. Agências, empresas de Design Produto, Studios de Design, escritórios…
Para alguns lugares, enviei currículos via email.
Alguns retornaram, outros não.
A maturidade me fez enxergar que este não é o modo mais correto de ser notada.
Então, procurei ligar para as empresas de interesse, agendar reuniões.
Mostrar a cara é sempre bom. Mostrar portfolios, mostrar áreas de interesse, segmentos de atuação anterior, planejamentos futuros, pretensões salariais… tudo isso é importante, pois nestas entrevistas, o entrevistador traça nosso perfil… e a primeira impressão, ainda é a que fica.
Ok. Já recebi propostas muito ruins. Já recebi propostas muito boas.
Algumas com salários bem generosos, até. Mas ainda estou estudando, estou em meu último ano de faculdade. Não posso e nem quero jogar tudo pro alto e tentar a sorte em São Paulo ou Santa Catarina. Não agora. Nem por R$ 6.000,00. Ficaria longe da família, do namorado, da faculdade, dos amigos. Teria que me aventurar. E aventuras assim, só rolam de verdade quando já estamos formados. Sei por experiências de pessoas próximas a mim.
Trabalhando como freelancer, acabo conhecendo muita gente. Estes contatos são importantes, pois acabam gerando indicações para novos projetos. Trabalhar como freelancer, é estar livre para escolher no que trabalhar.
E quando. Mas esta liberdade, embora seja muito boa, me preocupa.
Trabalhar assim, é estar um pouco vulnerável e meio instável.
Por isso, estando a procura de uma oportunidade fixa, fui entrevistada semana passada para uma vaga em uma empresa de grande porte. Passei pela etapa coletiva, passei pela etapa psicológica e cheguei, enfim, à etapa de entrevista com o responsável pelo setor para o qual a vaga se destina.
Gente, nunca vi tamanha falta de educação em toda a minha vida.
O sujeito é grosso, cara de poucos amigos, risinho meio torto de quem acha o máximo menosprezar tudo e todos.
Entrei na sala e olhei ao meu redor: um cubículo quente e escuro, três computadores em três escrivaninhas, muitos papéis em cima da mesa do ‘chefe’, três cadeiras.
O entrevistador ficou todo o tempo tentando me alfinetar. Levei portfolio, mostrei. Disse que ‘os projetos das mentes brilhantes dos designers eram quase sempre furada’, que ‘devíamos aprender a ouvir quem entende’.
Entre mil alfinetadas, e eu me segurando para não rir, teve uma hora que não deu: soltei uma gargalhada. O cara me olhou e perguntou do que eu estava rindo. E eu disse: ‘Disso tudo aqui, do senhor. É tudo muito engraçado’.
Depois disso, eu só pensava no quanto eu amo desenhar, criar, inventar. No quanto eu realmente adoro estudar o que estudo, fazer o que faço. E no quão infeliz eu seria se fosse efetivada para aquela vaga. Não lembro de muito mais que o entrevistador tenha dito depois da gargalhada que dei envolvida por tantos pensamentos de alívio e paz interior. Não mesmo. Só percebi que a entrevista tinha chegado ao fim, quando ele se levantou.
Eu me despedi do entrevistador, com um aperto de mão.
Ouvi ao sair: ‘Pois é… agora torce, torce bastante! Vai que eu te chame, né?’
Aham, Claudia. Senta lá.
Claro que não fui chamada. Claro que não me importei nem um pouco. Trabalhar em um lugar no qual temos que fazer de conta que odiamos design, que somos um nada, que não sabemos pensar? haha Obrigada.
Se por dinheiro nenhum no mundo eu vendo meus ideais, imagina se os venderei por pouco. Nunca.
Uma vez capacho, sempre capacho. Todos deviam lembrar disso sempre que um ser da era paleozóica fica na nossa frente, com ar superior, tentando fazer com que esqueçamos nossos reais propósitos de vida por meio de risinhos atravessados.
Devemos nos sentir bem onde trabalhamos. Devemos nos sentir parte do todo.
Se não houver criação, cor, luz, liberdade, como vou ser feliz? Não existe como.
Respeito não é uma rua de mão única. Ele deve partir da gente e voltar para a gente. É um espelho.
Ser chefe não é humilhar os contratados. É trabalhar junto, e trabalhar com. É saber direcionar projetos e liderar equipes. É saber tirar o melhor de cada funcionário. É incentivar o profissional a estar sempre crescendo e se aprimorando nas áreas de interesse. Funcionário feliz, é funcionário que faz bem feito.
Vou seguir trabalhando como freelancer e agora, boas notícias em breve chegarão por aí.
Afinal, quem se dedica e ama de verdade o que faz, um dia consegue seu lugar ao sol.